Quarta-feira, 27 de Dezembro de 2006

Cerimónia de Dedicação da Sinagoga Ohel Jacob III

SINAGOGA RENASCE EM LISBOA

in EXPRESSO 27/12/2006 por Rui Cardoso



chanukat-ha-bayit.jpg



Nava Harlow, mulher do rabino Jules Harlow, dirigindo o coro durante a cerimónia


(Foto de António Pedro Ferreira)


No mesmo domingo em que, nas igrejas católicas, se celebrava o anúncio da vinda do Messias feito por São João Baptista e que a Comunidade Israelita festejava no Fórum Lisboa a Hanukat (sagração do Templo de Jerusalém), um pequeno grupo dava um passo decisivo para o reencontro com as suas origens.


Num terceiro andar do bairro lisboeta do Rego procedia-se à rededicação de uma sinagoga, de ora em diante, o lugar de reunião daqueles que não encontraram acolhimento na comunidade judaica dominante na capital.


São duas dezenas de pessoas, residentes na Grande Lisboa, e que, de diversas formas, foram tomando consciência das suas raízes judaicas. O que para alguns foi uma mera curiosidade, para outros desencadeou um desejo de saber mais sobre a fé dos seus antepassados e dos ritos que, de tanto passarem secretamente de geração em geração, acabaram por divergir da matriz original.


“Muitos de nós depararam na família com vestígios de antigos rituais, fosse a forma como as avós ou as mães acendiam as velas, fosse a forma como matavam as galinhas”, explicou ao EXPRESSO Marco Moreira, de 26 anos, gestor de tráfego e presidente da nova comunidade.


"Sentimo-nos sempre mal amados"


Este reencontro com as origens levou a um processo de aproximação ao judaísmo. Adriana Sousa, economista, de 58 anos, começou a frequentar a sinagoga Shaarei Tikvah, da rua Alexandre Herculano, em Lisboa. “Lá sentia-me em paz”. Mas o reencontro não foi fácil. “Sentimo-nos sempre mal-amados”, coisa que não sucedeu junto dos judeus ashkenazi, ou seja, originários da Europa Central e do Leste. Contrariamente aos católicos e muçulmanos, os judeus não fazem proselitismo: considerando-se o povo eleito, não procuram atrair novos crentes. Os não nascidos de mãe judia têm de seguir um processo de adesão, em geral moroso e rigidamente codificado.


As dificuldades encontradas na principal sinagoga lisboeta magoaram também Beatriz Ferenczi Gomes, de 54 anos, professora francesa de origem húngara, actualmente radicada em Portugal. “Nunca percebi como, querendo nós voltar ao judaísmo, nos fechavam a porta”. Tanto mais que, nascida de pais judeus, teve “parte da família morta nos campos de concentração”.


Esther Mucznik, dirigente da Comunidade Israelita de Lisboa, disse ao EXPRESSO que esta pequena comunidade “não terá querido seguir os trâmites normais de adesão ao judaísmo que demoram o seu tempo”. É uma explicação, da qual, um frequentador habitual da mesma sinagoga discorda. Aron Katzan, engenheiro civil de 70 anos, nascido nos Açores mas de origem polaca, tem dificuldade em entender que as pessoas em causa, “tendo ascendência judaica e vontade de regressar à fé dos seus antepassados não seja mais bem acolhida”. Por isso, junto com outros familiares e dirigentes da associação Hehaber, responsável desde os anos 30 pela abertura e manutenção de uma pequena sinagoga de judeus ashkenazi, a Ohel Yaakov, colaborou no processo de associação do mesmo templo (que, ao longo dos anos, foi tendo diversas localizações) à nova comunidade.


A fé e humor acima do luxo


Esta, após diversos contactos desenvolvidos em Londres e Nova Iorque encontrou acolhimento por parte do rito Masorti (conservador), mais aberto que o ortodoxo às novas conversões. O rabino Jules Harlow, vindo propositadamente de Nova Iorque para a cerimónia de rededicação, mostrou-se impressionado com o entusiasmo desta comunidade, animada de um grande desejo de “recuperar as raízes abruptamente cortadas há 500 anos”. Aludindo ao Sermão do Sinai, referiu que o importante num templo, “não é o luxo do edifício mas a fé de quem o frequenta”.


Uma fé que não é inimiga do bom humor. O ambiente neste grupo, com cerca de um ano e que congrega, em partes iguais, pessoas abaixo e acima dos 40 anos, é descontraído. Ao ponto de a forma de explicar aos convidados a diferença entre um rabino ortodoxo, um rabino conservador e um rabino reformista tenha sido contar uma anedota.


À cerimónia religiosa seguiu-se a festa de Hanukat, com partilha de comida e bebida, para a qual os vizinhos forma convidados. "Ao princípio jouve alguma desconfiança mas penso que, com o tempo, seremos bem aceites", referiu Marco Moreira

publicado por Menino Rabino às 18:31
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1 comentário:
De digital-glamour.com a 10 de Janeiro de 2008 às 21:33
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